O post anterior foi aceso pela visualização na semana passado do filme "Please Vote for Me", parte integrante do projecto WhyDemocracy.net.
Mesmo sem saber o projecto já tinha chegado até mim através de outro filme, "Taxi to the Dark Side". Sim, esse mesmo.
Esta semana passou um outro filme cujo tema alimenta este post: Bloody Cartoons. Trata-se de um resumo, ou tentativa de resumo sobre a forma como os cartoons publicados na Dinamarca alimentaram uma cadeia de protestos globais.
Os filmes terminam com um "Pense nisto..." seguido de um link para o WhyDemocracy.net. Na minha opinião: brilhante! :)
Claro que penso nisto, e até já tinha pensado nisto antes de surgirem os filmes. Mas de qualquer forma a iniciativa é de aplaudir porque faz com que outros pensem, e ainda para mais dá-lhes informações para o fazerem de forma fundamentada.
Ou será que fazem?
No meu caso, a visualização deste filme alimentou ainda mais a certeza de que o grande problema enfrentado pela democracia como método governativo não reside na "ideia de democracia" que conhecemos, mas sim nos canais de comunicação não monitorizados que as pessoas usam para aceder à informação no seu dia-a-dia.
Na semana passada estive a bater no ceguinho dos meios de comunicação social. Com o filme desta semana a minha visão sobre o assunto ficou mais clara... O "problema dos cartoons" não esteve relacionado com os desenhos em si, mas si com o caminho sinuoso que a "ideia dos cartoons" levou entre as pessoas que lhe poderiam achar piada, e as pessoas que podiam ser incendiadas a associarem desenhos que nunca viram a mais um ataque à sua religião.
Há pouco li um livro chamado "The future of Reputation" que, entre outros temas, fala sobre alguns dos problemas que enfrentamos à medida que as pessoas passam a comunicar maioritariamente online. O livro é uma enorme chamada de atenção para o facto de neste novo espaço de comunicação e liberdade de expressão não existirem os supressores sociais a que estamos habituados nas nossas comunicações do dia-a-dia. As normas sociais simplesmente não estão lá quando olhamos para a caixa de texto do nosso blogue. Não há nenhuns sinais a avisar que ao publicarmos um post, esse post vai estar disponível a um bilião++ de pessoas, sendo evidente que muitas podem sentir-se insultadas pelo que estás a escrever.
Quando a mensagem perde o seu contexto original acaba por criar o seu próprio mundo. A partir desse momento deixa de fazer sentido falarmos sequer na liberdade de expressão do autor da mensagem. Claro que o autor tinha o direito de fazer um cartoon sobre Maomé! Podia tê-lo feito no conforto da sua sala, dado uma gargalhada e queimado o desenho de seguida. A não ser que fosse a melhor piada do mundo o seu cartoon não iria constituir uma ameaça para o resto das pessoas e seria uma gargalhada relativamente inócula.
O problema começa a surgir quando a piada começa a sair do controlo: quando esta sai do circulo de pessoas que apenas a consideram uma piada.
Nos grupos sociais em que circulamos as normas sociais garantem que a informação é contida pelos nossos pares - que compreendem quais são os limites que as conversas sobre conversas podem ter. Por exemplo, se eu decidir partilhar um segredo com um grupo de amigos continuo a chamar-lhe "um segredo" porque tenho algumas garantias de que nenhum dos meus amigos vai quebrar o nosso "contrato implícito de amizade" e passar a informação para fora do grupo, tornando-a pública. Enfim... para aprofundar este tema recomendo a leitura do livro! :)
De volta aos cartoons. Este foi um exemplo evidente do que pode acontecer quando uma ideia sai para fora do seu contexto original e começa a ser reprocessada para outros fins.
Para que não hajam dúvidas: na minha opinião, os responsáveis pela violência nas ruas não são o autor dos cartoons ou as pessoas com os cocktails molotov, mas sim aqueles que racionalmente alimentaram a divulgação da mensagem sabendo que iria provocar violência (nalguns casos sem terem visto sequer os cartoons originais). E enquanto que isto não inclui a publicação original, inclui todas as repetições da notícia sobre a notícia.
Convido o leitor a ver o filme duas vezes: uma primeira vez para ficar a par dos acontecimentos à medida que se foram desenrolando e uma segunda vez para verem o caminho sinuoso que a mensagem teve de percorrer até conseguir atingir as massas. Não se tratou de um indivíduo a criticar a fé de outro indivíduo mas sim de um tentativa deliberada para fazer chegar a interpretação ofensiva dos cartoons a mais pessoas que poderiam ser ofendidas por essa interpretação. Se não me engano o filme incluir a referência a um apelo, feito 6 meses depois da publicação dos cartoons, a um dia de manifestações contra a Dinamarca.
Acho que podemos compreender melhor os acontecimentos se os compararmos a "boatos" numa versão em grande escala.
Como seres humanos vamos mantendo o nosso pequeno círculo de conversas sobre conversas, tratando de assuntos que nos são próximos. Mas à medida que os sujeitos da conversa vão ficando mais distantes temos naturalmente acesso a menos informação e para compensar generalizamos a informação disponível. Quantos de nós não têm uma opinião genérica sobre cidadãos de certos países, sem ter conhecido uma única pessoa desse país? Ou, tendo conhecido uma pessoa, fez dela a representação dos seus restantes compatriotas?
A nível global os boatos alimentam-se destas opiniões infundadas e em reacções (em cadeia) a eventos descontextualizados.
Neste ponto podemos ilibar as "pessoas reais" que trabalham diariamente para ter comida na mesa - essas alimentam apenas os pequenos boatos. As forças por detrás dos boatos globais são os media de todo o mundo: esses sabem melhor que ninguém o poder que têm para redireccionar a opinião pública. E apesar disso, diariamente não vemos mais que uma utilização irresponsável desse poder. De que me interessa a mim saber que a Naomi Campbell anda a mandar escarretas a um polícia britânico? O simples facto disto ser notícia em Portugal devia ser suficiente para reanalisarmos a nossa dependência daquilo que os media nos atiram.
Mas voltando novamente ao tema original em torno do filme... :)
O filme foca-se na liberdade de expressão como direito democrático e no que acontece quando esse direito colide com os direitos de outras pessoas. A ideia é gira e tal, mas enquadra o tema de forma limitada. Para mim este não é um filme sobre liberdade de expressão e democracia! Ok, até é, mas quando o vi não peguei nele por aí. Na prática considero que é um retrato ideal do poder dos meios de comunicação (mesmo os líderes religiosos tiveram de recorrer aos media para chegar às massas) e da irresponsabilidade de expressão dos mesmos.
A discussão não devia ser em torno do direito à liberdade de expressão, mas sim sobre o direito à não-manipulação. Isto porque até em sociedades democráticas temos o primeiro sem o segundo.
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