O objectivo deste rascunho é iniciar um levantamento de ideias que me ajudem a completar o puzzle, pelo que espero os vosso comentários. :)
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Boas!
Nos últimos tempos as minhas pesquisas têm-me feito repensar o papel da democracia como forma última de governação.
Resumidamente, as ligações que fui feito fazendo foram as seguintes:
Sites de redes sociais -> Estudo da comunicação entre as pessoas;
Arquitectura controla movimentos no mundo real -> Arquitectura de software controla o que as pessoas podem fazer num sistema;
Desenho de formas de comunicação -> Conhecimento prévio da forma como as pessoas vão comunicar;
Controlo do canal de comunicação -> Criação de um ponto único de falha, monitorização das comunicações, agregação de popularidade;
Mecanismos de atenção limitados -> Impossível processar toda a informação que está disponível -> Escolha deliberada de pontos de agregação de informação -> Dependência desse ponto de agregação;
Analogia com os "meios de comunicação tradicionais": quem controla os meios de comunicação social controla a informação que as pessoas recebem;
Na internet a verdade consiste na informação que é retornada pelo google, o google rank é o mecanismo de eleição da nova verdade;
No mundo real o "sistema de eleição" tem como momento final a eleição dos representantes. No entanto, a eleição vai sendo preparada previamente através da divulgação de uma imagem dos candidatos;
Os mecanismos limitados de atenção das pessoas e a impossibilidade de estabelecer laços de forma rápida com um largo número de pessoas leva a que a única forma que um candidato local tenha de dar-se a conhecer seja através de "meios de comunicação social";
Estes meios de "comunicação social" deveriam ser renomeados para meios de "divulgação social" porque na prática são canais unidireccionais de comunicação - que não dão aos receptores a possibilidade de responder em pé de igualdade para todos os receptores da mensagem original;
Neste cenário, uma pessoa que queira chegar "ao poder" (= subir na hierarquia política) não tem como fazê-lo sem começar a massajar os orgãos da comunicação social e começar a cair nas boas graças daqueles que já têm a sua audiência. Novamente, esta é uma tarefa que exige tempo e normalmente o sacrifício da integridade das ideias do candidato.
Quanto mais uma pessoa sobe na hierarquia, maior fica a sua audiência e menor é a sua capacidade de processar as respostas à sua mensagem. Agravando-se assim o hiato entre o candidato e as pessoas que o elegeram localmente (e quiçá o descontentamento das pessoas por verem o sacana a ficar igual aos outros).
Agora versando sobre os objectivos dos cidadãos versus os dos candidatos políticos.
Defendo que a preocupação última dos cidadãos consiste na perseguição da felicidade para si e para os seus a curto-médio prazo. A maioria do seu tempo é despendido na sua actividade laboral, e como tal as suas preocupações centram-se em torno da mesma. A vivência é feita a curto-médio prazo e as atribulações que vão surgindo forçam a pessoa a concentrar-se apenas na realidade que a rodeia.
Para analisar os objectivos dos candidatos políticos, precisamos primeiro de focar-nos na definção de "política":
Política é o processo através do qual grupos de pessoas tomam decisões.Partindo da definição retiro que quando indivíduos se envolvem na política, fazem-no sabendo que irão estar a participar num meio que lida com as tomadas de decisão de/para grupos de pessoas.
Neste ponto, os indivíduos separam-se no nível de altruísmo que apresentam: alguns poderão procurar apenas benefícios para si ou para os seus enquanto outros dão realmente o litro para trazer benefícios para todos os elementos do grupo que representam. De qualquer forma, a diferença para os cidadãos ditos "normais" está no facto destes candidatos terem percebido que as coisas realmente importantes apenas se podem atingir em pontos de poder e normalmente com actividades com resultados visíveis a longo-prazo.
Independentemente das políticas defendidas (e objectivos subjacentes), a sobrevivência dos candidatos nos pontos de poder dependem da sua capacidade para fazerem pender (ou manipular à descarada) a próxima eleição em seu favor. É aqui que entra o "jogo" político: a troca de favores, as relações-públicas/gestão de imagem, o sacrifícios da integridade das políticas em troca dos votos necessários para que parte destas avancem, etc.
Podemos ver que estes são claramente círculos distintos: os políticos lidam com políticas e trabalham para se manter no poder enquanto os cidadãos dão o litro para ter comida na mesa.
É desta diferença de "estilo de vida" que nascem as primeiras bocas, a primeira pedra no que vai ser uma linha de vida diferenciadora. Assim que é feita a primeira crítica (injustificada) à classe política fica assente que um indivíduo não pertence nem pertencerá a essa classe. Se perguntarmos a um cidadão porque não faz alguma coisa para mudar o "estado das coisas" o mais certo é ouvirmos um "isso não é vida para mim" ou "não vale a pena". O hiato é construído tanto de cima como de baixo.
No centro deste buraco entre cidadãos e políticos encontramos uma entidade que depende da incompreensão entre as duas classes para subsistir: os meios de comunicação social. Estes são amigos dos cidadãos ao reportarem-lhes as notícias importantes (que eles próprios poderiam consultar, mas que não têm tempo para fazer porque têm os seus próprios "stresses" diários) e, ao mesmo tempo, são amigos dos políticos quando usam a sua liberdade editorial para dar relevo a uma dada notícia de fulano (que por acaso é familiar do dono do meio de comunicação social) e relegam para um pequeno rodapé a notícia de sicrano (que é apenas o candidato da oposição).
Os meios de comunicação social apresentam-se como amigos de toda a gente, mas defendo que na prática estes são o podre de qualquer democracia actual. Estes apresentam-se como ferramenta de liberdade de expressão, mas dada a sua natureza unidireccional e conteúdo editado acabam por não ser mais que forças manipuladoras do subconsciente social.
As notícias divulgadas são os extremos da realidade, aquelas que têm o poder para cativar a audiência, para as fazer ler aquele jornal em vez do jornal concorrente. A necessidade de informação dos cidadãos é saciada, mas com um peso elevado para a sociedade da qual todos fazemos parte.
Os meios de comunicação social são a única forma através da qual os cidadãos processam as actividades dos seus representantes e, para além das eleições, são a forma principal que os governantes têm para receber o feedback sobre as suas medidas. Ou seja, os meios de comunicação social, numa democracia livre, assumem simplesmente o papel mais importante de todos: o de ligação entre povo e estado.
Vivemos numa democracia baseada na populariedade, onde são potenciadas políticas que seguem o nosso subconsciente (sonhador ou revoltado) e não as nossas vontades racionais. Quando sonho posso dizer que quero ter uma reforma choruda e não ter de pagar impostos, não preciso de ser coerente ou fazer qualquer esforço para pensar de onde vem o dinheiro para a tal reforma.
Se a gestão de um país fosse feita com eleições diárias não seria possível tomar qualquer tipo de decisão de longo-prazo, uma decisão tomada hoje podia ser colocada em causa pelo representante que elegêssemos amanhã. E daqui a uns dias, quando esse representante fizesse alguma coisa que não gostássemos lá ia ele fora, e com ele todas as políticas que ele defendia.
Para que consigam resultados as políticas têm de estar em prática durante um período temporal que vai para além daquele com que o cidadão normal está habituado a lidar. Os impostos, por exemplo, dependem de muito mais do que vontade política. Uma redução dos impostos pode ser a base para que empresas estrangeiras decidam investir no país e criem trabalhos para os cidadãos do país. Agora... será que essas empresas o vão fazer? Eu como indivíduo não faço ideia, mas conto que o ministério da economia tenha pessoas competentes para ver isso. E daqui a uns anos, quem sabe... posso até vir a ter a sorte de conseguir um trabalho nessa empresa.
Apesar desta diferença entre o tempo de vida das políticas e vivência diária dos cidadãos, os meios de comunicação apresentam as políticas completamente descontextualizadas! Recentemente deu-se o caso dos impostos, com os meios de comunicação social a massacrarem os portugueses com a ideia de "reduzir os impostos". Semana, após semana, os políticos eram encurralados com a pergunta: "vai baixar os impostos em 2009?". Ao mesmo tempo os portugueses eram inquiridos na rua acerca do mesmo tema: "Claro, claro! Acho que deviam baixar os impostos". Em reportagens mais moderadas lá perguntavam a economistas o que achavam com eles a responderem que não se deviam baixar os impostos ainda porque isso na prática podia não trazer quaisquer benefícios aos portugueses.
Resultado do assédio: o governo baixou o IVA de 21% para 20%.
Consequência imediata: reportagens a começarem com "o governo baixou apenas 1% no IVA quando o aumentou 2% no início do seu mandato". Isto não é relato de notícias! Isto é manipulação da opinião pública!
Alguns poderão argumentar que no exemplo apresentado a intervenção dos meios de comunicação social poderá ter contribuído para a introdução de uma alteração desejada pelos portugueses. Pode ser que sim, mas o problema reside no facto de não ter sido dada a oportunidade aos portugueses para se fazerem ouvir acerca do tema. Apenas as pessoas que foram escolhidas pelos jornalistas viram as suas opiniões divulgadas.
Os meios de comunicação social apresentam-se como representantes não eleitos da população.
E tudo estaria bem se não fosse a tendência destes representantes para alimentarem uma governação de muito-curto-prazo que flutua à medida que se sentem os efeitos das notícias do dia anterior; onde os representantes eleitos são assediados com as vontades dos media; e onde não há quaisquer mecanismos democráticos para controlar os media.
É como se tivéssemos um estado não-democrático anexado ao estado democrático, com o primeiro a lutar pela transparência do segundo sem que ele próprio seja transparente.
A solução: desligar a televisão, deixar de ler o jornal. Nível de seriedade desta solução: o extremo imaginável.
É aqui que volto à temática original deste texto e puxo o pensamento para um espaço diferente: a internet.
Porquê a Internet? Porque esse é o novo mundo para onde todos estamos a emigrar. Dizem que é a ferramenta democrática por excelência e há excelentes iniciativas a demonstrá-lo.
Como em tudo na vida, também na Internet, há um lado positivo e negativo.
O que se segue é uma análise do bom e mau da Internet como ferramenta de suporte à democracia.
O grande potencial da Internet está na redução dos custos da comunicação (com o expoente negativo a ser sentido quando recebemos spam nos nossos mails).
Este novo meio permite a comunicação mais eficiente de ideias e oferece um canal alternativo aos meios de comunicação do mundo real. As pessoas podem consultar os orgãos do estado directamente, com a garantia de que a informação não foi editada ou censurada no processo, e podem apresentar o seu feedback directamente aos mesmos orgãos (se estes o permitirem), tudo isto a partir do conforto dos seus problemas diários.
Visto desta forma, a Internet parece ser a solução ideal para eliminarmos o poder do media na governação.
Como disse... nem tudo é bom. A Internet consegue a façanha de ser "demasiado democrática", conseguindo dar uma voz a toda e qualquer pessoa, inclusive pessoas que se fazem passar por terceiros, ou pessoas que abusam do anonimato para denegrir outras pessoas ou instituições. Esta vertente merece o seu tratamento em exclusivo, pelo que me vou concentrar apenas no primeiro ponto: a possibilidade de qualquer pessoa ter uma voz!
É sob este ponto que é agitada a bandeira da liberdade de expressão. Online, podes ser quem quiseres e usar o anonimato para divulgar as tuas ideias sem medo de represálias.
Actualmente, qualquer um pode criar um blogue e dizer o que pensa. Apenas publicando o seu texto, puff! Eis que acabou de ganhar um bilião de potenciais leitores. Um bilião de mentes que poderão ler e embeber a sua mensagem. Só com isto deveria ser possível angariar as 5 mil assinaturas necessárias para levar um tema a discussão na assembleia da república. WoW!
Para quê concorrer à junta de freguesia? A Internet permite atalhar caminho! Basta colocar ideias na Web e uma pessoa pode encontrar outros que partilhem as suas ideias e assim fazer a mudança!
Bom, não é bem assim. A possibilidade de criação de um blogue é mais parecida com a possibilidade de agarrar num poster, escrever lá algumas ideias e colocar o poster colado à porta da minha casa. Quando faço isto, todas as pessoas do mundo passam a ter acesso às minhas ideias. É simples, basta passarem à frente da minha porta e lerem o que escrevi.
Na Internet uma pessoa tem de enfrentar o mesmo "jogo" político que na vida real. É necessário construir um grupo de leitores que partilhem as nossas ideias e que potencialmente falem a outros do nosso blogue. O processo pode ser comparável à criação de um jornal e aumento gradual da sua tiragem (com a vantagem de não haver custo de replicação).
Por vezes, as pessoas juntam-se e mantêm blogues comunitários e mantêm mailing lists para suportar a comunicação de grupos. Aí torna-se mais fácil chegar a uma audiência interessada.
Outro mecanismo amplamente usado é o envio de emails em cadeia para alertar outros para certos temas. Uma pessoa pode usar um email para falar da sua candidatura a um cargo, ou das políticas que gostaria de defender. Aqui não há grande garantia de sucesso porque informações não-alarmísticas não têm "o sumo" necessário para sobreviver a alguns reenvios. Estamos treinados pelos media reais para consumir apenas o melhor ou o pior do mundo, tudo o resto não nos cativa e se cativa, dificilmente nos faz agir.
E por fim, eis que surgem os sites de redes sociais, o novo meio de comunicação social da Internet. Estes espaços "grátis" permitem que uma pessoa se mantenha a par das actividades dos seus pares e oferecem alguns mecanismos de comunicação (que têm vindo a substituir outros meios de comunicação: email, mensagens instantâneas). Por vezes incluem também blogues pessoas e possibilidade de criação de grupos dentro das redes sociais.
Nos EUA uma destas redes sociais, o Facebook, assumiu especial relevância quando as funcionalidades de grupos foram usadas com bastante sucesso pelos candidatos para conseguir o apoio dos eleitores.
Ferramenta democrática? Discordo completamente. Estes sites de redes sociais representam o equivalente dos meios de comunicação tradicionais do mundo real. São empresas com interesses económicos que exploram a informação pessoal disponibilizadas pelas pessoas por lucro e que apesar de ainda não controlarem o fluxo de informação, estão numa posição que permite não só a aplicação de monitorização e censura sobre as comunicações mas também a identificação completa dos indivíduos.
Qualquer potencial para o anonimato que ainda era possível usando blogues anónimos desaparece quando a comunicação é feita no seio de um site de redes sociais.
Devo clarificar melhor este ponto... quando um indivíduo cria um perfil num destes sites e começa a identificar quem são as pessoas que conhece está implicitamente a revelar dados acerca de si. Mesmo que mantenha informação falsa a seu respeito, a informação acerca das pessoas que conhece é suficiente para que coloque os seus conhecidos em risco (se considerarmos a existência de forças policiais opressoras) ou que possa ser identificado (noutros sites da web ou no mundo real).
Defendo os sites de redes sociais na sua implementação actual não oferecem as condições necessárias para que sejam usados de forma "democrática".
A maioria dos sistemas que usamos na Internet têm mais de uma década e foram desenhados tendo em conta apenas considerações técnicas. Se queremos usar a Internet para permitir uma cidadania mais activa por parte dos portugueses temos de dar um passo atrás e deixar a tecnologia quietinha.
O problema a resolver já existe no mundo real.
Temos de melhorar a comunicação entre cidadãos e os seus representantes.
Criar sites para todos os orgãos do estado é apenas parte da solução. No meio de milhões de sites que surgem todos os dias como é suposto uma pessoa saber a que sites se dirigir?
Se não souber é provável que um cidadão prefira mandar um mail para o "Nós por cá" e deixe o trabalho aos jornalistas.
Curiosamente, os sites de redes sociais apresentam um problema semelhante ao do estado: têm de manter os seus utilizadores felizes.
O mecanismo de feedback que existe actualmente é simples. Um utilizador com uma queixa é ignorado, mas se essa mesma pessoa criar um grupo "associado ao problema" e angariar mais utilizadores então os representantes do site já se mexem. Isto não é mais que gestão através de populariedade e não deveria ser a forma de gerir o futuro de um site utilizado por muitas outras pessoas.
Portanto, vamos imaginar um mundo onde os meios de comunicação desaparecem e partir daí criar soluções que permitam que as pessoas estejam a par das políticas do governo, e onde existam mecanismos democráticos (não populares) de feedback por parte dos cidadãos.