Wednesday, July 25, 2007

Partidos políticos

Partido - uma palavra que pode ser usada como um substantivo (s.m., conjunto de pessoas que seguem as mesmas ideias, especialmente em política) ou como adjectivo (adj., que se partiu; feito em pedaços; quebrado;).

No caso de partidos políticos, a utilização da palavra é feita como substantivo, sendo que as ideias podem ser de esquerda, direita e afixadas por centro ou extrema dando assim origem às várias posições políticas que conhecemos.

Na prática acho que a realidade política é melhor descrita se olharmos para "partido" como um adjectivo. Temos um conjunto de pessoas que [supostamente] representam os interesses do resto da população e que depois... por alguma razão histórica estão divididas em pequenos blocos.

Esta cisão em blocos acaba por marcar as pessoas como tendo uma determinada ideologia e mistura as suas ideias com a ideologia. Ataques às pessoas e ideologia são também misturados enquanto os vários blocos investem tempo na luta pelo poder para o partido.

Neste contexto torna-se difícil que "a oposição" faça mais que fazer oposição. Não estou bem a ver a oposição a agarrar numa ideia do governo, descobrir os pontos fracos e sugerir melhorias. Afinal... se o fizesse era o governo que ficava bem visto e depois as pessoas ficavam contentes com o governo e puxa! Nunca mais era a vez deles de governar! :(

Em vez de cooperarem para avançar, os representantes perdem tempo em discussões e debates.
Podemos pensar que é necessário debate de ideias para que as pessoas cheguem a um consenso e as coisa possam avançar. Assim seria se todos fôssemos racionais e respeitosos nesse debate. Mas não o somos. Percepcionamos ataques às nossas ideias como ataques pessoais; sentimos dor ao abandonarmos as nossas ideias em prol das de outros; e no meio disto especializamo-nos no ataque como melhor defesa: tornamos debates de ideias em lutas de egos.

Até este ponto tenho aqui um belo texto escrito, e se quisesse podia ficar por aqui. Mas felizmente posso apresentar soluções em vez de criticar apenas:

Existe um método chamado "Six Thinking Hats" que permite substituir o debate como forma de discussão intelectual. Este método é usado pelo mundo fora para conseguir reuniões e processos de tomada de decisão mais eficientes e é uma pena que não faça parte do programa do ensino básico. Podem ver aqui uma apresentação que o Pedro Carrilho fez sobre o método.
Quem estiver interessado neste tema pode também ler o livro "New Thinking for the New Millenium" do Edward de Bono.

Daquilo que me apercebi (corrijam-me se estiver errado) quando vi o debate sobre o Estado da Nação, na assembleia da república os membros do governo (os peixes grandes pelo menos) ficam sentados numa parte mais alta, ficando de frente para as pessoas menos importantes - como se não fosse suficiente haver já uma diferença quantitativa no número de assentos de cada partido...
Está-me a querer parecer que o arquitecto que desenhou o espaço não tinha lido o livro "Linguagem Corporal", porque isto de meter a malta frente-a-frente apenas contribui para que se vejam como adversários. Aproveito para lançar a dúvida sobre a possibilidade de ter a cadeira do chefe num ponto mais elevado alimente de alguma forma a necessidade de chegar mais alto por parte das pessoas que estão mais abaixo na hierarquia. :)

Ah! Lembrei-me agora de uma imagem que me marcou no debate sobre o estado da nação. Aquela gente parecia ter 6 anos de idade (sem querer faltar ao respeito aos meus leitores de 6 anos de idade). Enquanto um falava (estando apenas o seu microfone activo) os alvos dos ataques ou das críticas barafustavam e tentavam expressar por gestos o seu descontentamento, isto enquanto que as pessoas que estavam ao pé do orador diziam "Muito bem! Muito bem!" - isto quando não gesticulavam de volta aos gesticuladores (Pictionary no seu melhor! :P).
Aquilo não era mais que uma batalha de egos ridícula - intensificada pelo facto de apenas serem canalizadas (à falta de melhor termo) para a política pessoas com personalidades fortes e de ideias convictas (se assim não fosse estavam num trabalho das 9h às 19h como o resto dos portugueses).

Bom... tive aqui uma branca pelo que não tenho um fim adequado para este texto. TP!

EDIT: Esqueci-me de referir a entrevista do Spiegel ao autor russo Alexander Solzhenitsyn, a centelha para a escrita deste texto.

1 comment:

Anonymous said...

Não sei bem, qual o melhor método para melhorar o debate político. Não sei o que é preciso fazer _tecnicamente_ para melhorar o parlamento e o sistema político em si.

Mas uma coisa tenho a certeza. Para se melhorar qualquer sistema político democrático, é necessário aumentar e melhorar os nossos níveis de formação (e não estou a falar em canudos universitários) de todas as pessoas do país. Se o fizermos, é a melhor forma de garantir que teremos politicos mais competentes e pessoas a votar mais competentes.

Tendo uma população mais educada e formada, temos maiores probabilidades de conseguir alcançar um sistema político mais pragmático, que responda aos problemas de forma mais eficiente e a longo prazo às necessidades de todos nós, os cidadãos.

A curto prazo, o que podemos fazer é usar o sistema que temos para alcançar esse objectivo. É o que temos, é o que temos de usar. Não porque este seja o melhor, mas porque a alternativa é recusar participar porque o sistema não é do nosso agrado. E isso é inaceitável.