Era uma vez, um mundo onde saindo à rua se viam as estrelas no céu, onde as pessoas olhavam o céu e se interrogavam acerca daquela estranha tela escura com pontos iluminados.
Nesse mundo as perguntas partiam do indivíduo, e julgo que não seria estranho perguntar a um amigo:
"Olha lá, alguma vez pensaste o que está lá em cima?"
Esse mundo foi uma vez. E nunca mais voltou.
Hoje temos luzes na rua a ocultar a mística das estrelas. Correcção: qual mística?!?
Toda a gente sabe que os pontos iluminados são estrelas iguais ao nosso Sol!
Não precisamos de nos preocupar a pensar nisso, já foi descoberto...
Aliás... não temos de perder tempo a pensar em nenhuma dessas coisas. Ao nascermos já temos à nossa espera uma enorme herança de pares pergunta-resposta!
Infelizmente, isso significa que perdemos a oportunidade de chegarmos por nós mesmos às perguntas importantes. A maioria já foi respondida e a resposta é-nos vendida mesmo antes de nascer em nós a dúvida.
Quanto às perguntas que estão por responder, também não precisamos de nos preocupar com essas. Os peritos da área está a tratar da coisa! Ciência para os cientistas, medicina para os médicos, obras para os construtores, história para os historiadores, filosofia para os filósofos!
Dito isto...
- "O que queres ser quando fores grande?"
- "Não sei... :\"
- "Ok... não faz mal. Primeiro tens de estudar durante 9 anos e depois logo se vê."
(passados 9 anos)
- "Já sabes o que queres ser quando fores grande?"
- "Não sei bem... acho que gosto de ciências."
(vai para o curso de ciências durante 3 anos)
- "Parabéns! Acabaste o 12º ano. O que vais fazer agora?"
- "Não sei bem... Os meus pais querem que continue os estudos..."
- "E tu? O que é que queres?"
- "Não sei... se calhar vou para este curso."
(5/7 anos no curso decorridos e já com 24 anos de idade)
- "Agora onde vais trabalhar?"
- "Não sei, estive a mandar currículos. Estou à espera de resposta."
A história fica por aqui mas muitos sabem como a coisa continua.
A pergunta "o que é que queres ser quando fores grande?" vai sendo adiada ano após ano até que se apaga da lista de perguntas importantes. E a própria pergunta tem efeitos nefastos porque mistura "o que a pessoa vai ser" com uma profissão - de certa forma reduzindo o potencial de uma vida humana à realização de uma [única] tarefa.
Fechando a loja... acho que de certa forma temos um admirável mundo novo (só é pena que seja um mundo sem soma).
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