Saturday, July 21, 2007

Debate sobre o Estado da Nação

Antes de mais quero dizer que parto para a escrita deste texto num estado incómodo. Quando blogo tento ter uma posição informativa pacata, motivadora por vezes. Mas hoje vou entrar com a minha opinião pouco informada, distanciada e quem sabe mais ponderada que aquela dos portugueses que bebem o pânico do dia-a-dia noticioso português.

O tema: o estado da nação portuguesa.
Assisti ontem ao Debate sobre o Estado da Nação que passou em directo na RTP2.
Fica uma crítica para o facto de um programa de importância nacional ser enfiado na RTP2, adiando o programa Sociedade Civil enquanto que na RTP1 passava uma telenovela. O serviço público no seu melhor...

O meu horário laboral nocturno apenas me deixou apanhar o debate num estado já avançado, estando na altura a palavra no lado da oposição.

Faria um resumo do que ouvi nesta fase como:
  1. uma listagem de alguns acontecimentos mediáticos negativos do último ano - usados para mostrar que existe um clima de medo na função pública;
  2. referência, em duas intervenções, ao facto do primeiro-ministro não "viver no mesmo mundo/não ler os mesmo jornais" que nós, porque diz que tudo está bem (algo parecido pelo menos);
  3. mostra das promessas feitas e por cumprir ao longo do último ano;
  4. ataques pessoais e cachopices ornamentadas literáriamente;
Agora faço um fast-forward para as intervenções finais... a malta do governo apresentou uma listagem das coisas que foram feitas, e falou daquilo que estão a fazer em termos de rumo para o país (tendo apresentado dados para justificar as suas afirmações de melhoria).

Desta trapalhada toda, e tenho de lhe chamar trapalhada retirei montes de pensamentos.

A referência da oposição ao facto do primeiro-ministro não "estar no mesmo mundo" deixou em mim a ideia de que realmente isso é verdade, estando a diferença acho que está no facto do primeiro-ministro não ver televisão.
A televisão portuguesa mete a minha mãe em sofrimento com a morte da senhora que tinha cancro e mesmo assim foi metida a trabalhar e com o professor que foi despedido por supostamente dizer mal do Sócrates. Não que aprove qualquer um dos acontecimentos...
A questão é que o governo de um país não é isto. Não se pode medir em acontecimentos pontuais e na vida/morte de algumas pessoas. Ao nível económico as ferramentas ao dispor do governo são poucas e com retornos a longo-prazo. A governação tem de ser feita com o futuro em mente e parece-me, novamente da minha posição limitada, que este governo tem essa visão de futuro.

Ainda sobre isto, recebi por mail hoje um artigo de título, Falar baixinho, que terá sido publicado na Visão que faz um belo apanhado do que vai na mente dos portugueses, e que ao fazê-lo reforça essa mesma ideia nas suas cabecinhas!
A coisa começa assim:
Falar baixinho, não criticar o chefe à frente dos colegas, evitar contar anedotas sobre a licenciatura do primeiro-ministro. Se vivemos em democracia, porque é que - nas escolas, nos hospitais e na administração pública - se voltou a viver em clima de medo? O que é que (ainda) nos resta do Portugal amordaçado?

Obah! Obah! Adoro quando sei a resposta a estas coisas. :)
Voltou-se a viver num clima de medo porque os meios de comunicação social vivem exclusivamente das polémicas, vivendo da desgraça alheia e alimentado todas as possíveis conspirações sociais, tramas e afins. Mesmo quando eles não existem, facilmente surgem - nem que seja deixado no ar pela dúvida expressa por um jornalista.

O artigo começa por apresentar uma caixinha com "Os episódios da polémica", seguindo-se blocos de texto com o título "Cavaquinhos e socratezinhos", "Salazar faz falta" e "Ninguém nos cala". Só por aí julgo que já dá para definir as expectativas quanto à qualidade informativa do conteúdo. Acho que o artigo não faz mais que alimentar isto a que eles chamam polémica e apenas no fim apresentam algo que considero importante e "útil":
Há três meses, no discurso das comemorações do 25 de Abril, Cavaco Silva havia recomendado que "Portugal deve pensar-se como democracia amadurecida". Agora, o Presidente da República repetiu o aviso, argumentando ser necessária "uma mudança de atitude" para que haja uma melhoria da qualidade da democracia portuguesa. António Costa Pinto, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, considera que a recomendação de Cavaco Silva "não remete tanto para actos de autoritarismo burocrático-administrativo, como para o facto de estarmos muito afastados da União Europeia em indicadores como o controlo por parte da sociedade civil dos actos governativos, a participação cívica e a capacidade crítica da comunicação social e da opinião pública".

Não podia estar mais de acordo com o Cavaco e o António. E daqui retiraria o verdadeiro Estado da Nação: uma realidade onde o governo governa, a população e a oposição criticam e onde as comunicação entre toda esta gente é feita ao rumo da agenda mediática dos meios de comunicação social.

Ena, até saiu um belo texto. :)

Agora toca a enxovalhar os meus leitores. Se és um daqueles que achas veementemente que todos os políticos são uns aldrabões e que tudo está mal deixa-te de merdas e faz alguma coisa. Ficam aqui algumas sugestões:
  • compra uma estação de televisão ou um jornal diário;
  • passa a incluir a TV2 no teu zapping de canais (meaning informa-te e sê crítico quanto à informação que recebes);
  • mede o teu nível de portuguesice (tenho de fazer uma calculadora online para isto) e luta para o baixar até valores mais elevados de positivismo e interesse pela nação;
  • emigra!;
  • se não és capaz de emigrar porque "cá é que é bom" então pára de te queixar de uma vez!
Concluo com um pensamento acerca do clima de medo que todos sentimos no trabalho (eu por acaso hoje mudei o escritório para a casa de banho e devo dizer que aqui o clima de medo é do pior):
Este medo não deriva da possibilidade de perdermos o emprego se dissermos mal do governo, mas da possibilidade de perdermos o emprego por algo que estamos tão habituados a fazer: dizer mal.

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